18/5 – Terça

O carro chegou ao antigo aeroporto de Hellenikon onde acontecerá o primeiro dia de corrida do circuito fechado. O maior hangar foi transformado na oficina de todas as equipes, todas juntas, o que é típico de corridas solares. Tivemos um problema a enfrentar: nosso veículo foi destruído no transporte rodoviário de Paris para Atenas. Tivemos as suspensões dianteiras trincadas e entortadas, o pára-brisas estilhaçado e a suspensão traseira partida em duas, mas o par de amortecedores, (doados pela Cofap – empresa do simpático cachorrinho, hoje pertencente à Magnetti Marelli) ficou intacto. A suspensão traseira foi projetada e construída na Jakko-Mastin, empresa da eclética família Bomeisel de engenheiros: o Sr. Ari e seus filhos Carlos e Eduardo (este conhecido no meio como “o Pai do carro solar brasileiro”). O ocorrido causou comoção geral e acabamos nos tornamos o xodó da competição. A palavra é essa mesma, "xodó". Não só pela simpatia que vem do jeito amigável e inspirador de coleguismo do brasileiro, mas também pelo infortúnio que nos atingiu (e que poderia ter acontecido com qualquer um dos participantes). Algo ocorreu, algo notável e, felizmente, comum em corridas solares: uma união, um esforço coletivo se instalou para tirar, "no muque", nosso carro de cima do caminhão - nosso algoz. Os australianos do Aurora (os melhores do mundo), os alemães do Hans Go, os japoneses do Tokai High School e os gregos (guardas do ex-aeroporto e até o organizador da competição em pessoa) carregaram o carro solar brasileiro conosco. Éramos hemisférios sul e norte, o oriente e ocidente, várias raças e culturas, todos unidos, movidos por uma força inexplicável e irresistível de ajudar o próximo. Sentimos que aquilo era um exemplo de como o mundo deveria ser.

O fato ilustra a filosofia das corridas solares. Isto ocorre porque corridas de carros solares são competições de cientistas-esportistas... Tínhamos acabado de chegar à Grécia, nós e o pessoal do Aurora nunca tínhamos nos visto antes, e, ainda assim, eles carregaram, lado a lado conosco, na raça, um carro de um suposto competidor. Eles estavam ao lado de um banner dos alemães, e também são claros, loiros e altos, então os agradeci em alemão. Ouvi a resposta, com a gíria, o sotaque e o bom-humor típico dos Aussies: “It’s ‘thank you!’, mate!” Por sinal, "Aurora" é um lindo nome para um carro solar, trazendo a idéia de um renascer para uma nova era, um terceiro milênio de respeito mútuo entre os seres humanos e para com o meio ambiente.

Assim que acabamos de avaliar os danos, o chefe de equipe da Hans Go ofereceu-me sua máquina de solda e um membro de sua equipe para fazer os reparos necessários. Um membro do Aurora ofereceu-se para fazer a soldagem, sua especialidade, mesmo sabendo que poderíamos fazer o reparo nós mesmos. Refez toda sua programação - e de sua equipe - por nós. Bem mais tarde, por volta da uma da manhã, os americanos da Universidade de Yale chegaram ao hotel. Ao ficarem sabendo do nosso incidente , foram ao aeroporto/oficina nos encontrar - sim, teremos que estender nossas horas diárias de trabalho devido ao imprevisto – e ofereceram sua ajuda. Tudo isto mostra claramente que a vontade de um corredor solar é, sim, chegar na frente - mas com todos os outros carros chegando, também. Impossível não pensar no espírito olímpico que, além do fogo, acende a tocha olímpica a cada 4 anos: amizade, cooperação e paz.

Esse espírito se junta a idéia de um planeta sustentável como algo viável. O fato de que incríveis 80% das casas gregas aquecem água com energia solar é um grande estímulo para quem defende a energia solar. Nos cantos mais escondidos da Grécia pudemos ver os painéis sobre os telhados das casas, por mais simples que elas fossem. Curiosamente, isto ajudou na nossa navegação pois, aqui no hemisfério norte, esses mesmos telhados são voltados exatamente para o sul.

Amanhã, quarta-feira, dia 19/5, o chefe da segurança do Aeroporto, que é perito judicial e também ex-armador (ou seja, um construtor de embarcações marítimas, atividade bastante difundida em Atenas), vai nos levar para locais especializados em solda de aço e em venda de peças mecânicas - uma ajuda de valor incalculável para quem não conhece a cidade ou a língua. Sem ele, não saberíamos onde ir. E mesmo que falássemos grego, como diríamos algo como: "por favor, faça uma nova flange, igual a esta outra aqui, de aço, respeitando a forma e as dimensões"? Isto tudo para dizer: que povo incrível é o povo grego!

Vinicius Rodrigues de Moraes, chefe da equipe Petrobras / USP Solar, conta como foi...
Maio 2004
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